sexta-feira, 23 de março de 2018

V E N E N O

(Romance em elaboração)

INTRODUÇÃO



Então sim! Estava resolvido. Puxou a mochila preta do armário e começou a entochá-la de roupa, com raiva, dando socos para que nenhum ar ficasse entre uma peça e outra. Os cabides de plástico, ora sem nenhuma peça pendurada voavam pelo quarto arremessados com violência.
Não aguentava mais! Uma discussão atrás da outra. Era tal bater de portas, de se recolher no quarto e isolar-se, se apartar e passar assim horas até aquele estado  iracundo amansar.
Era assim, uma discussão atrás da outra, todos os dias, às vezes por pequenas divergências, outras por profundos dissensos. Fazia fadiga em lembrar um dia de harmoniosa convivência. Estava sufocando. Decidiu!
Mais um cabide se despedaçava ao atingir a porta trancada do quarto, gritos, berros e quanto mais roupas socava na mochila mais as lágrimas inundavam a boca, até que já sem forças, de cócoras, mãos no rosto e costas para a cama ainda estremecendo pelo nervosismo tentava-se acalmar e em tudo repensar.
Mas não, não ia adiantar nada, ia ser somente um instante de trégua para depois começar tudo outra vez.
Basta! Estava mais de que na hora de demonstrar, sobretudo a si em primeiro lugar que as próprias ideias, as próprias convicções, os próprios anseios, eram seus e de mais ninguém, que a sua vida era sua e a pertencia, que a queria viver em sua plenitude, errando talvez, mas por erros próprios e não sofrer pelo sofrimento dos outros.
Basta! Percebia as veias pulsar fortemente naquela passagem de grossos volumes de sangue encorpado daquele veneno assimilado há anos. Coçava fortemente os braços com a ponta dos dedos deixando as unhas quase arrancar a pele.
A mochila já estava cheia, tinha de tudo um pouco, o suficiente para algumas trocas rápidas. Arrebentou o lacre do cofrinho e pegou tudo o que ele continha de anos de minguadas economias. Uma pequena fortuna afinal. Guardou um pouco no bolso da calça e o resto na mochila, bem escondido, junto com um documento de reconhecimento, uma velha foto da genitora e um antigo canivete suíço, única recordação de um avo nunca conhecido.
Pronto! Agora era só cair fora daquele pesadelo, pela janela é claro. Era a única saída. Sem problemas, já tinha feito este tipo de travessura outras vezes. Olhou ao redor, ninguém. Ou agora ou nunca. Jogou primeiro a mochila e agora era só pular.
A mão ainda segurava o seu corpo pendurado à janela, quando se lembrou de algo. Puxa tinha esquecido! Com esforço adentrou novamente ao quarto, correu ao armário, puxou uma gaveta e rapidamente subtraiu um pacotinho. Desta vez pulou. Na queda a mão soltou o pacotinho. Recolheu-o e o colocou definitivamente na mochila. Não podia sair sem ele, eram absorventes íntimos, para as emergências daqueles dias é claro!
Uma rápida corrida foi suficiente para alcançar a estrada e graças a uma providencial carona chegou à cidade mais próxima e à estação ferroviária dela.
Não se deu conta do porque de estar ali, só queria colocar a maior distância entre tudo que lhe causava sofrimento e parada, olhos fixos nos trilhos, foi tomada por uma profunda angústia. O dilema era definir a direção e apoiada de costas a um poste aguardou em lágrimas.
A luminosidade do dia foi gradativamente sendo substituída pela negridão da noite. Somente a luz daquele poste a iluminava por inteira e cansada, confusa e sem rumo decidiu achar um abrigo melhor para cochilar. 
Alguns vagões cargo estacionavam sobre um trilho morto e não perdeu tempo em ocupar um deles. Na escuridão daquele vagão o sono veio fácil e em posição fetal no duro piso de madeira, ficou.

Anna Spina Labadini, vinte anos, 1,68mt de altura, cabelos lisos, castanho claro assim como os seus olhos, corpo quase perto do estereótipo da mulher ideal, mas que ainda tinha muito a desenvolver, pelo menos era o desejo dos rapazes da sua mesma idade. De temperamento forte e volitivo, demonstrava-se simpática e sensível, e era muito ligada à família e as tradições, sentimentos nela marcados a ferro por um pai fortemente tradicionalista e austero e que inevitavelmente soube lhe transmitir a cada dia um pouco do seu veneno assimilado por anos de amarga vivencia.
A Pietro Labadini a vida negou a melhor parte da existência. O amor de sua esposa Ofélia Spina, falecida em dar à luz a única filha, Anna e em estado depressivo compulsório, não conseguiu expressar o amor a mesma, pelo endurecimento dos sentimentos, petrificados e insensíveis desde a morte da esposa.
Não que culpasse a filha pela perda da esposa, mas na convivência a aterrorizava, endurecia todo tipo de diálogo com ela, a privava da companhia de amigos e de qualquer tipo de relacionamento que não fosse o dele. Com a idade ficou possessivo ao estremo e com o seu conceito de proteção a sufocava.
As discussões eram diárias, não tinham horas para acontecer, Pietro reclamava de tudo e de todos e acabavam sempre da mesma maneira; portas furiosamente fechadas e esmurradas, pratos quebrados, cadeiras arremessadas.
No fundo Pietro a adorava, queria dela aquele sentimento de  amor perdido da esposa mas não sabia como obtê-lo e não conseguia reconhecer os esforços que Anna fazia para demonstrá-los.
Dia após dia o relacionamento entre pai e filha foi se deteriorando a ponto de provocar uma verdadeira cisão, um repúdio, uma tamanha rejeição que provocou a fuga de Anna do seu lar paterno e que não foi percebida se não uma semana depois.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

RESENHA

R E S E N H A

Publicada no PORTAL S4.
A toda a equipe do Portal os meus sinceros agradecimentos.

Resenha – A Oliveira da Discórdia – C.D Rosso

A Oliveira da Discórdia 
Gênero: Drama
Páginas: 58
Autor: C.D ROSSO
Sinopse: Mercado Livre
Hoje é mais um dia de resenha e como não poderia ser diferente, iremos resenhar um novo livro aqui no Portal S4.
O  escolhido da vez é o livro “A Oliveira da Discórdia” que já passou por aqui no blog, ao ter o delegado Michele participando da coluna “Entrevistando Livros”, a entrevista com o delegado pode ser conferida aqui!
“A Oliveira da Discórdia” narra a historia de dois irmãos que após herdarem algumas terras, depois do falecimento de sua mãe, passam a se desentenderem devido a uma árvore milenar que estava presente num dos terrenos que herdaram.
A partir desta situação que a trama vai se desenvolvendo, acabando em um final trágico para ambos os irmãos.
Em meio a tudo isso, temos a primeira aparição do delegado Michele, que depois do incidente ocorrido com Antonio e seu irmão Francesco, acaba tendo o caso em suas mãos  e não demora para que o delegado solucione o mistério a cerca do incidente envolvendo os irmãos acima citados.
A historia de “A Oliveira da Discórdia” é bem gostosa de ser lida e o autor traz muitas informações interessantes sobre uma parte da Itália e ainda sobre oliveiras, que são praticamente o ponto chave da trama.
Podemos dizer que “A Oliveira da Discórdia” é um livro bem interessante de ser lido e apesar de curto, consegue prender o leitor com os seus acontecimentos.
Desta maneira, podemos concluir dizendo que “A Oliveira da Discórdia”, merece um espaço em suas prateleiras, atualmente o livro encontra-se a venda no mercado livre pelo preço de R$ 25,00.
Nota da Obra: 5 Estrelas

sábado, 6 de janeiro de 2018

O Delegado MICHELE LATÉGOLA

Entrevista ao delegado  publicada no portal S4 - Entrevistando Livros.



- Qual seu nome. Como prefere ser chamado:
     - O meu nome é Michele Latégola. Não possuo apelido e jamais o permitirei.
- - Qual sua idade:
     -No primeiro encontro, com o autor, 57 anos. Digo isso porque estou vivendo uma série de casos alongando a minha idade.
-Como descreveria o lugar onde vive:
     -Tenho a minha residência fixada em uma pequena cidade de província, no Sul da Itália. Cidade de pouco mais de 30.000 almas e no exercício de minha função os conheço quase todos. Ou pelo menos, eu creio!  Por profissão, vivo o meu tempo maior numa pequena estação de Polícia, uma delegacia praticamente, onde sou o delegado responsável. Acho que já dá para imaginar como vivo o meu dia a dia.
- Se tivesse que se definir numa palavra, qual seria?
     Carabiniere.
- Quem é o Carabiniere, pode esclarecer?
     -A arma  Carabinieri é uma das quatro forças armadas da Itália em defesa da segurança nacional.
- Agora diga como a sua resposta anterior reflete em sua vida como um todo.
     - Uma vês carabiniere, sempre carabiniere. Meu avô era carabiniere, meu pai também foi e agora eu. Vivo da carabiniere, respiro da carabiniere, penso da carabiniere. A disciplina, as leis, tudo o que a função determina está configurada no uniforme que uso diariamente, salvo raríssimas exceções.
- Possui algum talento/dom especifico? Fale sobre ele.
     -Perspicácia, talvez seja o dom que precisa ter na minha profissão. Não o chamaria de talento, isso para mim é outra coisa. Como homem da lei tudo tem que ser avaliado, ponderado, visto e revisto. Principalmente quando se trata de acusar alguém de um crime e quando isso ocorre a minha perspicácia tem me ajudado muito em trilhar o caminho para chegar à solução do caso.
- O que costuma fazer no seu tempo livre?
     - A minha profissão não me permite de ter tempo livre, mas quando acontece tiro obviamente este meu uniforme e tento me misturar ao povo, como gente comum, respirando um ar diferente, fazendo a minha passeada preferida, visitando alguns exercícios comerciais para fazer compras. Enfim me sentir um livre cidadão como os outros. Apesar de que a minha popularidade me leva a lembrar o policial que sempre sou. Todo mundo faz questão de me cumprimentar, como delegado obviamente.
- Qual o seu tipo favorito de roupa?
     -Acho que tenho pouca escolha. Se em serviço, o uniforme. Fora dele costumo usar sempre um terno clássico. A minha idade não me permite de usar casual.
- E o seu estilo musical?
     - O clássico sem dúvida, dando predileção à lírica.
- Alguma em particular?
     - Difícil de dizer, as amo todas, mas particularmente La Bohéme, musicada por Puccini. Esta me faz sair da realidade completamente.
-- O que te torna diferente do resto das pessoas do seu mundo e por quê?
     - Por ser um homem da lei, sou diferente não por minha vontade, mas pelo cargo que ocupo. Todos me veem com olhos diferentes, não é difícil de perceber.
- Se tivesse que falar do autor C.d.ROSSO o que falaria?
     - Diria que soube me colocar em diferentes casos de difícil solução, pelo comportamento dos demais personagens e pela diversidade das diligências em que tive que operar. Acho que ele também sofreu o peso da responsabilidade.
- Se pudesse mudar algo na sua vida, o que faria de diferente?
     -Impossível, como disse antes, uma vez carabiniere sempre carabiniere. Não me vejo em outra roupagem.
- Resuma sua vida em poucas palavras.
     - A minha personalidade, o meu caráter e tudo o que me define como personagem, o autor, levou a conhecimento do leitor através os vários volumes da serie. Cada volume tem um pouco da minha personalidade. Em síntese sou viúvo, sem filhos e não pretendo casar novamente, apesar da insistência de alguns colegas que vez ou outra  querem modificar o meu estado civil. Moro sozinho e tenho a ajuda de uma governanta que resolve todos os meus problemas domésticos. Amigos? Poucos, mas somente no ambiente de trabalho. Entre eles apenas um, que por ser solteiro, vive grudado na minha calça e frequenta a minha mesa nas refeições, muitas vezes sem ser convidado. É o meu tormento profissional e como médico legista, me ajuda a solucionar os casos. Alguns, pelo bem da verdade! Gosta de comer os meus biscoitos de amêndoa, feitos fresquinhos pela minha governanta e não me paga nunca um café. Simpático e irônico a seu modo não poucas vezes me faz perder a paciência. Do resto é uma boa pessoa.
- Deixe uma mensagem para os seus amigos.
     - Evitem de me fazer perder a paciência, que na minha idade já é pouca!
- E agora para os seus inimigos.
-     -Não tenho inimigos, somente contraventores, às vezes involuntários. A estes digo sempre: - Respeitem a lei, ela foi feita para protegê-los e não para condená-los. Enfim, evitem de atrapalhar a minha aposentadoria, que está bem próxima.
- Alguma recomendação para o leitor?
     - A eles auguro boa leitura e que me sigam pacientemente. Ao final terão uma visão clara da cidade onde opero e vão conhecer outros personagens muito interessantes também.

     - Obrigado.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

I N S E P A R Á V E I S


INSEPARÁVEIS.

Manoel Teixeira, 56 anos, incansável corretor de imóveis, trabalhava para uma imobiliária durante oito, dez horas por dia, esticando o seu horário de trabalho mesmo em horas impróprias. Naquelas horas que, já em casa poderia e deveria dedicar à família e a casa. Estava sempre disponível para os seus eventuais clientes, sempre consultando o seu celular, recebendo e enviando mensagens. Costumava largar a comida já na mesa para intermináveis conversações telefônicas.
- Pare com isso, Manoel! Você nem se alimenta direito! – costumava dizer a esposa quase diariamente. – Porque não se aposenta. Proporcione um pouco de seu tempo para as crianças!
As crianças de que a esposa falava já tinham superado a idade da adolescência há muito tempo e ele nem tinha percebido. O tempo corria veloz para ele, não dava para nada.
- Quando me aposentar  ficarei o tempo todo com vocês, prometo! Mas agora ainda não dá!
Era a frase que Manoel costumava pronunciar. Isso quando se lembrava de fazê-lo!
O ritual diário de Manoel era sempre o mesmo: um beijo para a esposa, uma recomendação para as crianças e via para mais um extenuante plantão que cumpria religiosamente também aos sábados, aos domingos e muitos feriados também!
Saiu de casa também naquele dia, correndo por estar atrasado. O carro não queria pegar, tinha chovido muito durante a noite. Depois de várias tentativas, conseguiu e finalmente partiu.
O seu inseparável celular tocou e prontamente atendeu. Não deu nem para dizer alô, a cortada repentina de um motociclista o distraiu e o celular caiu. Abaixou-se rapidamente para pegá-lo, conseguiu e tudo o que deu para ouvir foi um barulhaço estrondoso de uma brecada seguido por um impacto e mais nada.
Uma confusão generalizada formou-se ao instante, todo mundo gritando, mas Manoel não ouvia nada. Saiu do meio daquela confusão rapidamente, não queria nem saber do ocorrido. Ficou desorientado por um pouco, queria entender e ao mesmo tempo não!
Um veículo lhe parou perto:
- Tá precisando de uma carona? – perguntou o motorista abaixando o cristal de sua porta.
- Não, bhe sim! Estou atrasado! – respondeu Manoel.
- Suba então! – disse o motorista.
Manoel apressou-se a abrir a porta para sentar no lugar do carona.
- Não, aqui não! Suba atrás, tem mais espaço! – disse o motorista e continuou - Pode deitar se quiser, parece estar cansado!
Manoel obedeceu sem falar nada.
- Qual é o seu nome? – perguntou o motorista.
- Sabe que não lembro! – respondeu Manoel – acho que aquela confusão me desorientou!
- Um documento, o senhor tem um documento? – continuou o motorista.
- Sim, mas acho que deixei no carro! – concluiu Manoel e acrescentou – preciso ir para...
- Não se preocupe, vou dar uma parada na minha firma primeiro. – concluiu o motorista.
Dez minutos depois o veículo estacionou:                        
- Venha, vamos dar um jeito no seu look! Sabe que não tem um bom aspecto? – disse o motorista.
- Não, não precisa, está bom assim! – respondeu Manoel.
- Vai querer que os seus familiares o vejam assim? – acrescentou o motorista e continuou - Não, não, vamos ajeitar tudo, não se preocupe! Fique quieto aí, vou buscar umas coisas e volto já.
Manoel, deitado aproveitou para relaxar, nunca tinha achado alguém tão prestativo.
O barulho de uma porta o acordou e com o rabo do olho viu um tal de camisola preta parar na frente dele. Logo depois um novo barulho de porta e outro tal de camisola branca chegou correndo.
- Sempre atrasado você! – disse o tal de camisola preta.
- A minha lista é longa, não tem jeito, vivo sempre atrasado! Mas estou aqui, não estou? – respondeu o tal de camisola branca.
- Já que está sempre atrasado, deixe este comigo e vá correndo para o próximo da sua lista! – disse o tal de camisola preta.
- Nada disso, ele é meu, não leu o histórico? – respondeu o tal de camisola branca.
- Sim, eu li, mas tem muitas coisas que o fazem de minha competência. – insistiu o tal de camisola preta.
- Vai querer discutir com o superior? Se estou aqui é porque é de minha competência! – ratificou bravo o tal de camisola branca.
 Resmungando, xingando e até blasfemando o tal de camisola preta afastou-se e rapidamente deixou o local. O outro começou a preencher um tipo de formulário e devagar abandonou a sala também.
Manoel deitado ficou sem jeito de participar daquela discussão. Sentiu-se um pouco aliviado quando o motorista que lhe deu carona voltou:
- Aí, senhor Manoel, acharam os seus documentos. Agora ficou tudo mais fácil. Fique quieto aí, vou lhe dar uma limpada no seu rosto. Não vai querer se apresentar assim aos seus familiares, vai?
Cinco minutos depois...
- Agora sim! Está mais apresentável. – disse o motorista. – No aguardo de seus familiares vou colocá-lo em um lugar fresquinho, aqui está muito quente, não acha?
- Mas aqui está muito apertado e gelado também! Parece uma gaveta de...- tentou dizer Manoel.
- Acha apertada uma gaveta de necrotério? Pois é, mas o senhor não tem que achar nada! O senhor está morto, senhor Manoel! Ah vou lhe colocar um meu cartão aqui no bolso, nunca se sabe não é mesmo!
A gaveta do necrotério foi fechada, Manoel logo sentiu os calafrios da geladeira e não sentiu mais nada. Ah, errei! Sentiu sim, uma forte dor na cara quando ao ser tumulado alguém jogou com violência um celular bem no rosto dele.
Será que alguém não tinha gostado do presente?


No enterro do senhor Manoel Teixeira, incansável corretor de imóveis, nenhum colega apresentou-se para a última despedida, obedecendo as claras diretrizes do dono da imobiliária pelo qual:
- Não se vai em enterro de pobres!

                                                                                                        C. d. ROSSO

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SKIPP, O MONGE GUERREIRO.
(O CAVALEIRO NEGRO, parte III)


                                              Skipp, o monge guerreiro.

                                                     Nord-Europa  1078.

Cap. 1 – A Missão.

Seis lunações se passaram desde o equinócio de primavera que determinava o início de um novo ano, as condições climáticas ainda eram excelentes, temperatura agradável e sol intenso de dia, cuja duração superava largamente aquela da noite. O sol ao horizonte ainda brilhava nas horas consideradas noturnas, por todos chamado o sol da meia noite. A temperatura da água era agradável, se comparadas com aquelas terríveis do inverno e o vento assoprava leve e enchia as velas dando ao barco uma boa propulsão, para um navegar tranquilo e confortável.
Não tem período melhor para uma viagem bonançosa em direção ao norte e o capitão Darlan não deixou escapar esta oportunidade. Após uma longa cavalgada a oeste, evitando possíveis traiçoeiros encontros, alcançou um esquecido vilarejo de pescadores e ali contratou um traslado rumo ao norte. Para evitar suspeitas e possíveis negativas, decidiu subdividir a viagem em várias etapas. Passava de vilarejo em vilarejo, todos sem expressão e importância, misturando-se com os demais pescadores e comerciantes de ossos e de peles, aprendendo arte e cultura.  A viagem para alcançar o objetivo preposto era longa e isso não o ajudava a reduzi-la, mas era a única maneira de não revelar o destino final e ao mesmo tempo fazer com que os seus rastros desaparecessem. Ter que enfrentar o enfurecer do inverno era a sua preocupação maior, mas o de ficar vivo para concluir a missão o preocupava  ainda mais. Aprendeu a se alimentar à moda local, estranhos pratos de peixe e verdura temperados esquisitamente por melecas azedas intragáveis. Nunca um bom e gordo pedaço de bacalhau cozido na cerveja e posteriormente enrolado em largas folhas verdes de repolho e levado ao forno. Coisas que somente nas borgadas civilizadas poderia encontrar.
Por caminhos sinuosos deixava o Mar Báltico e enfrentava agora o Mar do Norte já tempestuoso pelas correntes, que pelo mar grosso avançavam e por onde pequenas embarcações deixavam de transitar.
Finalmente um embarcadouro digno deste nome onde grossas barcaças disputavam as diversas posições para levar cargas de variada utilidade a longos barcos de alto e poderoso mastro para uma larga vela e de quilha robusta para enfrentar viagens em mares muitas vezes desconhecidos.
A figura monstruosa de uma serpente marinha adornava a sua proa e vista de perto assustava mesmo. O capitão Darlan já conhecia este tipo de embarcações. Mas toda vez que via uma de perto se assustava. Não adianta não se sentia confortável. Preferia enfrentar o inimigo por terra firme que balançando naquelas embarcações.
Carregando um saco com os seus pertences e uma grossa bastarda nas costas Darlan procurava no meio de todo aquele transitar de gente, alguém que lhe pudesse garantir um lugar tranquilo para uma viagem, também tranquila.
- Ehi, senhor! Tem lugar para um passageiro? – perguntou Darlan para uma figura que tinha toda a pompa de ser um líder.
- Qual o seu destino forasteiro? – respondeu o líder.
- Como direção o norte, como destino a ilha de Selja, conhece? – precisou Darlan.
Aquele homem grosso, barbudo, cabeludo de longas tranças ainda loiras, peito viloso de grossos músculos, desceu do barco e esfregando as suas mãos sujas na calça marrom de pele de alce em larga parte surrada disse:
- Sabe cavalgar, forasteiro?
- Com certeza, mas tive que me desfazer do meu cavalo para vir até aqui! – respondeu prontamente Darlan.
- Estava me referindo às ondas, forasteiro. – corrigiu o líder.
- Já andei por outras águas, mas estas... – disse primoroso Darlan.
- Tem sempre a primeira vez! – respondeu o líder – Pode pagar?
- Isso pode ser suficiente? – perguntou mostrando duas peças de ouro.
Ouro? Refletindo bem, nunca tinha visto de perto uma peça de ouro, quanto muito de prata e em raríssimas ocasiões e para se certificar que fosse ouro mesmo, pegou uma não antes de limpar bem as mãos passando a pontas dos dedos na língua e sucessivamente as mãos, várias vezes no seu peito viloso. Pegou delicadamente uma peça e deu uma profunda mordida se certificado da nobreza do metal e colocou as duas peças no bolso.
- Uhm! Escolha o seu lenho e se ajeite, vamos levantar a âncora logo mais. – concluiu o líder.
O capitão Darlan subiu no barco meio desajeitado pela sua inexperiência e se arrumou num canto bem tranquilo. Logo depois, a gritos e ordens várias, o barco largou as amarras e lentamente começou a sua viagem. Estava quase cochilando pelo doce ondear quando um violento pontapé chutou o seu glúteo.
- Eu disse para escolher o seu lenho, forasteiro! Pegue logo o seu e comece a remar! – berrou o líder.
- Remar? Eu já paguei pela viagem! – explicou Darlan.
- Quanto mais braços tivermos, mais rápido alcançaremos o destino! Força molenga!
Darlan obedeceu prontamente, pegou o seu remo e depois de algumas desastradas tentativas, finalmente acertou o rítmo dos companheiros de viagem.

O rítmo cadenciado da voga dado pelo timoneiro era bastante sustenido e apenas o barco começou a deslizar no azul lastro do mar, uma gigantesca vela quadra de listas azul e branca, foi aberta. O sopro constante do vento a encheu de tal maneira que a embarcação tomou tal velocidade que não foi necessário mais o uso dos remos para dar impulso, mas apenas auxiliando, aliviando a fadiga dos homens. Darlan respirava sorridente a plenos pulmões aquela brisa gelada, deu para esquecer até  porque estava fazendo aquela viagem. Já por quê?

                                                                                                                           C.d. ROSSO.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017


V A L Ê N C I A                                                           



Cap. I


Ramon Capón nativo da cidade de Valência habilidoso marinheiro e valoroso soldado fez da arte da guerra a sua razão de vida a serviço de Sua Majestade o Rei de España. Não tinha luta onde não se destacasse ao lado do seu inseparável sabre, finamente decorado com arabescos e desenhos, presente de seu pai.
 Cabelos longos, pretos e encaracolados, levava no lóbulo da orelha direita um brinco de ouro, argola que foi anel de casamento de sua mãe, falecida durante o parto. Diziam dele, ter sangue sarraceno[1], mas a sua alma era espanhola com certeza. Não recusava nenhum confronto e quando ofendido pela cor de sua pele, levemente escura, lavava com sangue a ofensa recebida. 
Sabia ser cruel e ao mesmo tempo justo com os inimigos derrotados. Conta-se que em uma briga de taberna, ofendido como de costume, cruzou o seu sabre[2] com uma lama prussiana. Vencido o  insolente e provocador  duelante[3], reconhecendo a inutilidade de um derramamento de sangue estendeu-lhe a mão, recebendo dele gratidão à vida.
Soube-se tempo depois que o duelante era nada menos que um duque prussiano que se tornou Rei a assumir o controle da Prússia.
O valor demonstrado em batalha, principalmente nas defesas da costa espanhola lhe valeu o titulo de capitão e o comando de um galeão que ele mesmo nomeou de Valência em homenagem a sua cidade natal.
A ele a coroa de España depositou todas as esperanças de receber grandes quantitativo de ouro e pedras preciosas das colônias Caraíbicas  e foi assim que o valoroso capitão Ramon, recebendo também a patente de Corsário[4], preparou o seu majestoso galeão Valência rumo ao Vice Reino de Nova Granada.
Preparado para navegação oceânica o galeão possuía quatro portentosos mastros com diferentes tipos de velas quadradas de larga abertura, distribuídas pelos quatros mastros, dando uma velocidade surpreendente mesmo com cargas excessivas. Velas triangulares de proa permitia a navegação mesmo contra ventos. Levava quatro chalupas com oito remos e um mastro para uma vela triangular, com capacidade suficiente para acomodar vinte homens. Possuía 60 bocas de fogo, distribuídas em dois níveis, quatro das quais logo abaixo do castelo de popa, terror da mais poderosa frota britânica que o caçava desde o fim da guerra de sucessão por ter conseguido superar o estreito de Gibraltar antes do bloqueio britânico.

Ramon Capón liderava o Valência com grande maestria e generosidade obtendo dos seus subordinados grande fidelidade e obediência, graças também ao trabalho incessante do seu segundo, o também capitão Diego Ortiz, mais jovem e igualmente experiente em navegação oceânicas.
Já capitão de embarcações menores, Diego Ortiz conheceu o capitão Ramon antes da guerra de sucessão, demonstrando-lhe o seu valor de marinheiro antes e de comandante depois. Aperfeiçoou os seus estudos marítimos na cidade Italiana de Genova onde aprendeu a ler as cartas náuticas e tirar o maximo de informações de um céu estrelado para uma navegação rápida e segura.
 A invenção do Amalfitano Flávio Gioia[5] para ele servia somente para confirmar as suas convicções, mas que utilizava principalmente em noites de céu encoberto para não correr riscos inúteis. Experto no uso do sextante[6]  conhecia como ninguém a rosa dos ventos[7] e dificilmente se deixava surpreender da mudança repentina dos ventos e tirava maior proveito ao abrir ou fechar as velas de sua embarcação. O seu aprofundado estudo dos ventos lhe garantia um traçado de rotas até então impensáveis e lhe permitia em batalha alcançar o inimigo de surpresa ou fugir dele quando necessário.
 Nativo também de Valência, cabelos pretos e longos recolhidos em uma rede usava bigodes e cavanhaque a francesa que exaltava a beleza do seu rosto e lhe conferia a autoridade necessária mesmo com a sua jovem idade. Costumava usar uma camisa vermelha para mascarar eventuais sangramentos em batalha e não apavorar os seus subordinados.
Em batalha e em eventuais duelos utilizava uma rapieira[8] na mão direita e uma lama menor e mais leve tipo fiorete[9], na mão esquerda. Dificilmente o seu inimigo ficava de pé mais de cinco segundos. A sua habilidade e a sua jovem idade lhe permitia enfrentar três inimigos ao mesmo tempo. Mexia-se com tamanha rapidez que o inimigo demorava em perceber onde  achava-se Diego no duelo, um verdadeiro diabo. O seu golpe preferido era uma espécie de dança na frente de dois inimigos de modo que alinhando-os os traspassava com a sua lama em uma só tocada.

Continua...
                                                                                                               C.d.ROSSO


[1] Sarraceno – Povo de origem árabe.
[2] Sabre – espada de lamina ligeiramente curva.
[3] Duelante – pessoa que participa de um duelo
[4] Corsário – Comandante de embarcação que a diferencia de pirata tinha autorização para atacar outras embarcações.
[5] Flavio Gioia – inventor da bussola.
[6] Sextante – Instrumento utilizado em navegação para medir a distancia angular entre uma estrela e o horizonte e para cálculos de posição.
[7] Rosa dos Ventos – Carta náutica, serve para identificar os pontos ao horizonte e indica a direção dos principais ventos
[8] Rapieira – Tipo de espada com lama estreita e longa.
[9] Florete -  Tipo de espada de lama fina e curta.

Conto em fase de revisão 

terça-feira, 28 de novembro de 2017


KUNDRAS, O DRUIDA.

( O Cavaleiro Negro parte II )

Cap. 1 - A Familia Real.

Uma densa bruma fria e úmida descia lenta encobrindo a cerrada floresta de coníferas verdes e de abeto vermelho, barreira natural à proteção do reino de Fredrikfjord situado a pouco mais de dez milhas da costa ao norte do Mar Báltico. A escassa claridade do período dificultava uma precisa distinção do dia e da noite percebida apena aos olhos espertos  de profundos conhecedores e estudiosos  dos percursos dos astros em continuo movimento.
Um incessante bater de tambores preanunciava uma iminente cerimônia oculta propiciatória para garantir a proteção dos Deuses. Na clareira da floresta um filhote de alce amarrado e estendido numa mesa improvisada de pedra aguardava de olhos esbugalhados o seu trágico destino. Após confusas palavras proferidas pelo obscuro ministro o objeto cortante da cerimônia desse violento afundando na garganta da infeliz creatura.
Um grito lacerante ecoa ao longe na floresta percebido apena aos ouvido sensível do sacerdote, que após alguns minutos para tentar interpreta-lo, retoma o seu sacrifício propiciatório.
Kundras, um druida celta, escapado ao massacre que viu derrotados os seus seguidores, se escondia na floresta e planejava com paciência a sua vingança. Conseguiu agregar novos seguidores acolhendo sob a sua proteção pequenos grupos nômades de perdidas tribos sem guias, prontos a servi-lo em troca de proteção e um lugar fixo para progredirem.
O lacerante grito percebido por Kundras, saiu da garganta de uma solitária figura distante milhas daquele lugar de cerimônia, completamente a ela ignota.
Numa clareira da mesma floresta perto de uma pequena fogueira bem camuflada para não ser percebida, entre atrozes sofrimentos, de pé, apoiada e forçando duas arvore, a sibila Hulda dava à luz uma criança. Fraca e extremamente cansada pelo esforço, deitou no chão frio e úmido da floresta e apertando ao seu peito a sua criatura, desmaiou. Acordada depois de muitas horas arrastou-se até o seu refujo, protegendo a criança para que ninguém ouvisse o seu choro ou suspeitasse daquela presença.

Um ano e três meses após o seu casamento com Cristhian, a rainha Agnetha deu ao reino de Fredrikfjord um herdeiro decretando dez dias de festas e jubilo em sua homenagem. Mas enquanto todos do reino festejavam o feliz acontecimento, na fortaleza de Agnetha predominava um clima de incerteza e preocupação.
Agnetha tinha dado à luz três gêmeos. Idênticos entre eles, nos mínimos detalhes, copias idênticas difícil de identifica-los a primeira vista, Somente uma leve nuança na cor dos olhos os distinguia  um dos outros. A cor azul de céu intenso do primogênito, do celeste pálido do segundogênito e o terceiro  um olho da cor do primeiro e o outro da cor do segundo. Coisa que foi possível verificar dez meses depois. Todos loiros e de boa saúde alem das características físicas que os acomunavam os três tinham também outro sinal que os identificavam como irmãos e como filhos do mesmo pai.
No peito direito todos tinham a mesma cicatriz que Cristhian apresentava, cicatriz esta feita a seu tempo pelo estilete da sibila Hulda e não somente, ao toque da cicatriz de um os outros também advertiam a mesma dor aguda, como se o estilete estivesse penetrando naquele momento. Era suficiente Cristhian apertar a sua ferida para que os três gêmeos sentissem a mesma dor.
Mas as preocupações de Agnetha pelo futuro do reino a atormentavam a ponto de querer manter em sigiloso segredo o nascimento dos gêmeos. Eram aquelas épocas que somente um herdeiro podia ter garantida a sucessão do reino, aos outros, outro destino era reservado.
Por ter abraçada a fé católica a rainha Agnetha decidiu batizar os gêmeos na pequena capela da torre. Chamou Soren o primogênito, Sven o segundo e Skipp o terceiro, que foi em total segredo levado pelo próprio padre que o batizou na perdida ilha de Silja ao norte do pais, onde em uma abadia,  monges beneditinos o recolheram.
No aguardo de definir o destino do segundogênito a rainha Agnetha decidiu apresentar aos seus súditos, ao completar o seu primeiro aniversario, Soren, o seu príncipe herdeiro, mantendo Sven afastado de tudo e de todos, no aguardo de um destino mais oportuno.
A noticia das festividades promovidas para a comemoração, chegou aos ouvidos de Kundras que sedento de vingança excogitou um plano para ferir a morte o coração de Agnetha.

A praça na frente da torre estava lotada de gente de todo tipo. Comerciantes montaram barracas para expor e vender as próprias mercadorias, malabaristas de todo tipo se exibiam em suas evoluções, lutadores, comedores de fogo e espadas trovadores vindos de todo os cantos, entoavam canções, poesias e historias, encantando o publico, longas mesas eram preparadas para receber os peregrinos famintos vindos em recorrência daquela grande festa e entre eles um peregrino muito especial.
( Continua)

C. d. ROSSO

PASSAGEM, SÓ DE IDA. Coletânea de poesias e textos introspectivos em um contesto autobiográfico.

V E N E N O ( Romance em elaboração) INTRODUÇÃO Então sim! Estava resolvido. Puxou a mochila preta do armário e começou a entochá-...